“Precisa disto sempre que termina um novo livro. Um ritual, cada um tem o seu. Há quem comemore de imediato, champanhe, um vinho guardado há tanto (…). Gestos que fecham um ciclo. Ele não. Precisa de o dizer sem o dizer, para dentro. Para o lugar onde ainda se debatem dúvidas, onde recorda ainda as palavras, estarão no lugar certo, entender-se-ão umas com as outras, gostariam de ser outras, dirão o que penso que dizem. É uma angustiante felicidade, ideia que poderá soar contraditória a quem não escreve. Mas não haverá muitas formas de definir o que diz para si, sem a dizer, a palavra: terminei. Porque terminar deveria trazer alguma paz de missão. Quando o que o assalta é: E agora?”
Há muito tempo que não lia tão devagar.
Não porque o livro me entedia, mas, antes, porque preciso absorver cada palavra.
Há qualquer coisa nesta forma de escrever, nesta entrega, nestas palavras e nesta história, que me estão a incomodar profundamente.
Que é o mesmo que dizer que me estão a enfeitiçar.
Há muito que não via um exercício tão perfeito de combinação de forma (quase perfeita) com conteudo (pesado, negro, real)...
O livro chama-se Canário. E o autor é Rodrigo Guedes de Carvalho.